Ggancho é um termo comum quando o assunto é escrever, seja no jornalismo, na ficção ou qualquer área. No livro Writing Active Hooks 1: Action, Emotion, Surprise and More, a autora Mary Buckham não só classifica os cinco principais tipos de gancho na ficção, mas também nos ensina a identificá-los e como e quando usá-los para o melhor efeito possível.

Alguns conceitos de escrita, pra mim, são imutáveis. O gancho é um deles. Seu uso mantém o leitor interessado na próxima frase, no próximo parágrafo, na próxima página, até o fim do livro. É claro que alguns ganchos vão fazer mais sentido para você do que outros (e alguns fazem mais sentido em determinadas histórias e gêneros), mas a teoria do livro é um ótimo ponto de partida e aprendizado para uma aplicação consciente dessa técnica — conheça a regra para entortá-la ou quebrá-la.

writing active hooks

[Todas as traduções foram feitas livremente por mim, tanto das citações do livro como dos exemplos usados pela autora. Talvez não sejam a melhor adaptação possível, mas fiz o melhor para apresentar as ideias passadas e minhas interpretações.]

Buckham explica cada gancho com uma excelente atenção aos detalhes. Ela traz exemplos de livros famosos e cria primeiras e segundas versões hipotéticas dessas frases, nos mostrando o processo que determinado autor teria passado para chegar ao resultado final. E esse é um ponto importante: os ganchos devem ser colocados na revisão do seu livro, e não na primeira versão.

Não se preocupe se não incluir ganchos no primeiro rascunho. É pra isso que serve a revisão — para procurar oportunidades de fortalecer sua escrita.

O que é o gancho

A autora começa explicando o conceito de gancho.

Os ganchos mais fortes provocam questionamentos ou reações no leitor. Uma reação […] inconsciente que o faz querer descobrir mais.

Para Buckham, o gancho funciona quando você continua a leitura mesmo quando pretendia pará-la. Nesse livro, ela foca o uso dos ganchos na primeira frase do seu manuscrito e no final dos capítulos.

Gancho de ação/perigo [action/danger]

O primeiro tipo de gancho apresentado é o de ação/perigo, mas não pense apenas em movimento — precisa ser algo que chame atenção, que provoque curiosidade.

Pergunte-se: existe alguém em perigo na situação? Alguém poderia estar em perigo? A situação é perigosa?

Buckham também avisa que a repetição desse gancho diminui seu efeito. Por exemplo, se um personagem, no começo da história, aparece desarmando uma bomba como parte de seu trabalho, o gancho se aplica, porque a situação é obviamente perigosa. Mas se vinte capítulos depois o mesmo personagem continua desarmando bombas, o leitor já não se importa tanto. Isso é o esperado deste personagem, e como ele já sobreviveu a isso, é provável que sobreviva novamente. O gancho foi diminuído.

Contudo, se você adicionar riscos — o personagem acabou de ter uma briga terrível com o marido/esposa e não está concentrado; a bomba é mais complicada de desarmar, mais mortal; o personagem precisa ficar pendurado em um prédio para desarmá-la — todos esses problemas significam que riscos diferentes foram injetados no enredo, o que vai manter o gancho de ação/perigo forte.

Exemplos

O míssil atingiu sem aviso. — D.J. MacHale – The Soldiers of Halla

Vemos então a explicação de por que esse gancho funciona. A frase, apesar de não conter ação, implica perigo. Buckham cria então um primeiro rascunho que o autor D.J. MacHale poderia ter feito da passagem:

Os mísseis estavam caindo próximo ao quartel-general havia algum tempo.

A frase ficou mais passiva, menos imediata. O senso de imediatismo aumenta o efeito desse tipo de gancho.

Mãos longas e elegantes roçaram em sua bochecha e depois se fecharam em volta de sua garganta. — George R.R. Martin – A Guerra dos Tronos [tradução oficial do livro.]

PRIMEIRO RASCUNHO: O homem foi morto por estrangulamento.

Para alguns leitores, a frase do primeiro rascunho pode funcionar como gancho de ação/perigo, mas lembre-se:

Você não está escrevendo para exceções, leitores que normalmente não leriam o seu livro. Você está escrevendo, em primeiro lugar, para seu público-alvo.

Essa frase do Martin é a penúltima do prólogo do livro. Buckham explica que o final de cenas e capítulos pode conter várias frases ou até mesmo um parágrafo inteiro para construir e aumentar um gancho. Já primeiras frases, tanto a primeira do livro quanto a de outros capítulos, ficam melhores com ganchos de cara para prender o leitor.

Se você quiser diminuir a intensidade desse tipo de gancho, talvez visando seu público-alvo, a autora sugere colocar o perigo ou ação no meio de uma frase mais longa, com palavras menos intensas. Frases curtas, por outro lado, aumentam a tensão e o ritmo.

O detetive Chase Kelly encarou a ponta de uma semiautomática .45, seu cérebro desesperadamente procurando uma saída. — Christie Craig – Divorced, Desperate and Delicious

As palavras-chave que Craig usa para manter essa abertura mais leve incluem: seu cérebro (filtro que permite distanciamento do imediatismo da situação); desesperadamente (diz para o leitor qual emoção o personagem sente em vez de mostrá-la com suor escorrendo pela testa, aceleração do batimento cardíaco, seus músculos se contraindo para lutar ou ficar sem reação); procurando uma saída, tipo de frase longa que diminui o ritmo.

Buckham também constrói exemplos próprios para explicar os ganchos.

Mac andou até o canto e pegou a caixa.

Contém movimento, mas nenhuma ação ou perigo.

Deslizando ao longo do estreito parapeito de granito, um pé de cada vez, Mac se inclinou sobre a última curva e agarrou a caixa.

A última frase mostra o perigo implícito pela escolha das palavras.

Gancho de emoção esmagadora [overpowering emotion]

Não basta ser algo simples, deve ser devastador.

PRIMEIRO RASCUNHO: O homem morreu.

SEGUNDO RASCUNHO: Ele estava morrendo.

FINAL: O adolescente estava morrendo sozinho. — Frederick Forsyth – O Cobra [tradução oficial do livro.]

Gancho de surpresa [surprising situation]

A situação é uma surpresa para o personagem e/ou para o leitor? Tenha em mente que ganchos típicos do gênero em que escreve não surpreendem tanto (ex. assassinato em um thriller).

No gancho de surpresa, o contraste entre o que o leitor espera e o que é revelado é uma abordagem poderosa.

Não havia zumbis na festa. Eu ficaria feliz em encontrar alguns. Pelo menos o bate-papo teria sido menos insultante. — Marjorie M. Liu – Armor of Roses

Gancho totalmente inesperado [totally unexpected]

É como o gancho de surpresa elevado ao próximo nível. Precisa chocar pela estranheza. Pode implicar algo sobre a história cuja verdade só será revelada mais tarde.

Um capuccino me custou a vida. — Rachel Cohn – Cupcake

Gancho de questionamento

Faz o leitor questionar algo. Para um efeito melhor, não responda a dúvida imediatamente. Mantenha o suspense.

Jack Reacher pediu um espresso duplo, sem limão, sem açúcar, copo de isopor, sem xícara, e antes da bebida chegar em sua mesa, ele viu a vida de um homem mudar para sempre. — Lee Child – The Hard Way

Criando múltiplos ganchos

Buckham termina o livro com sugestões de como criar vários ganchos na mesma passagem. Um erro comum é pensar que são necessárias várias frases para obter esse efeito, mas poucas frases (e curtas) funcionam tão bem ou até melhor.

Quanto mais ganchos uma única frase contém, mais tensão você vai ter na página, e quanto mais tensão, mais rápido é o ritmo.

— Mate o bebê. — Sherrilyn Kenyon – Acheron

A autora explica que a passagem anterior — somente três palavras — contém oito ganchos, os cinco discutidos nesse livro e três do próximo volume.

Para adicionar ganchos eficientes, pense em quais deles os leitores do seu livro esperam. Pense em quais ganchos se encaixam melhor  em determinada cena, e no que é necessário para manter o interesse do leitor.

No final de cada capítulo, Buckham sugere exercícios — tanto de pesquisa quanto práticos — para desenvolvermos a técnica de escrita dos ganchos. Writing Active Hooks contém muito mais detalhes e dezenas de exemplos para cada gancho. As explicações que coloquei aqui são apenas uma parte do que a autora cobre. Recomendo o livro para todos os escritores.

Se tiver interesse, fiz um mindmap com os pontos-chave (pra mim) do livro.

writing active hooks por mary buckham

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