Ooutro mês em que tardei, mas não flopei. Vamos lá.

Do que eu falo quando eu falo de corrida, por Haruki Murakami

Murakami fala sobre seus sentimentos relacionados às maratonas que compete e como o processo se relaciona com a escrita. É o primeiro livro que leio do autor, e me deixou interessado em suas outras obras. Um livro bem inspirador — Murakami vendeu seu bar de jazz aos trinta anos para escrever seu primeiro romance, e depois começou a correr maratonas e parou de fumar. Ele fala mais que apenas corrida (apesar do livro, a meu ver, ser mais atraente para quem pratique esse esporte, coisa que não faço): fala sobre envelhecer, superar limites e do significado emocional de praticar determinada atividade.

Porque Lulu Bergantim não atravessou o Rubicon, por José Cândido de Carvalho

Nunca tinha entendido o conceito do livro de cabeceira, algo pra ficar por perto e ser lido sempre em pequenas doses antes de dormir, como um antidepressivo, até ler essa obra. São diversos contos pequenos, o maior deve ter três páginas, onde causos improváveis acontecem em cidades nordestinas fictícias e com pessoas também fictícias, mas com gostinho de realidade. A linguagem regional é talvez mais importante que o conteúdo dos contos, adicionando um humor inigualável. A bizarrice já começa nos nomes, tanto no dos contos quanto no dos personagens e locais.

Lobo de Rua, por Janayna P. Bianchi

Lobo de Rua funciona como um prólogo estendido do primeiro romance da autora, A Galeria Creta, ainda para ser lançado. Pra mim, um dos problemas de prólogos é o despejo de informações. Por ser uma introdução, essas páginas iniciais contêm descrições excessivas e explicações desnecessárias sobre a “mecânica” do mundo. De certo modo, isso acontece em Lobo de Rua, mas sem exagero e com um diferencial: a escrita de Janayna. Ela insere as exposições bem espaçadas, em diálogos e pontos de vista dos personagens. Sua prosa é leve e divertida, bem humorada em alguns momentos e mais sombria em outros, acertando o tom das passagens. Aliás, um detalhe (ou falta dele) que eu gostei muito foi a Janayna ter optado por não descrever cada canto de São Paulo. Essas descrições, que me parecem mais ligadas às emoções do autor que ao propósito das cenas, faz a leitura se arrastar, ao menos pra mim. Ótima fantasia nacional.

A Liga dos Artesãos, pro Lauro Kociuba

Estou há um tempo afastado da fantasia mais hardcore, seja alta ou baixa. A Liga dos Artesãos foi um bom retorno ao gênero. O livro é mais voltado para a fantasia urbana, com elfos, orcs e humanos diferentes (Encantados) habitando a Curitiba atual. O enredo é bem cativante, criativo e, na medida do possível, novo. Anões andam de Harley-Davidson, possuem máquinas de guerra movidas a vapor, a história das raças ligada à fundação e ao desenvolvimento de Curitiba, e por aí vai.

Gostei bastante do enredo. Achei a trama bem construída e me surpreendeu a forma como a fantasia e a realidade se misturaram na obra. As cenas de ação também renderam bons momentos de leitura. Minha parte favorita foi a história de Marcel e dos bardos. Foi incrível ver como essa famosa classe funciona na prática.

Sandman: Edição Definitiva vol. 4, por Neil Gaiman

Não sou muito fã dos trabalhos longos de Neil Gaiman, como Sandman e Deuses Americanos, apesar de adorar sua não-ficção e seus contos. O volume, de maneira geral, é ótimo, e o final da saga de Morfeus foi bem satisfatório, mas eu já não estava investido na história ou nos personagens. Acho que o principal problema, pra mim, foi a escrita do Gaiman — ele parece querer ser lírico demais, e a prolixidade me distanciou muito da narrativa. Sandman é um clássico e eu sou apenas uma exceção.

Writer’s Little Helper, por James V. Smith Jr.

Um livro bem básico que tenta cobrir todos os aspectos da escrita e não se aprofunda em nenhum. Há algumas dicas bem legais, mas só recomendo para quem for absolutamente novo na escrita. Acho que contém uma boa base, mas o autor, às vezes, tenta pregar umas regras arbitrárias que me incomodam.

Lições de um ignorante, por Millôr Fernandes

É um daqueles livros que não envelhecem. Ou, talvez, seja a sociedade que não mude. Cheio de críticas divertidas e que nos fazem pensar em nós mesmos, no nosso país, na cultura e nas próprias críticas. Engraçado e reflexivo, o que é raro.

A vingança do bastardo, por Eleonora V. Vorsky (Alexandre Machado)

Livro engraçadíssimo, com humor nonsense e bem ofensivo, satirizando a cultura pop da década de 1980. A narração do livro é no estilo noir, mas muito caricato e pastelão, como “A cela era de um escuro úmido e umbroso. O nome do escuro era Waltencir e tinha sido condenado por molestar sexualmente um pelotão inteiro do Exército da Salvação”.

Se esse for o seu tipo de humor, é diversão garantida.