Eestou sempre pensando no papel das influências na escrita, e em como isso me afeta. Particularmente, procuro escrever como meus ídolos, sem nenhum pudor ou fazer segredo sobre isso. É algo que almejo e, sinceramente, me orgulho bastante.

Claro, também é importante achar a própria voz. Mas ela é algo que vem com o tempo, com a experiência, com a quantidade. Até lá, o que fazer?

De vez em quando, leio uma coisa ou outra sobre pessoas com medo de parecerem inautênticas ou com influências fortes demais, que dão na cara — algo que as deixaria como wannabe de autor x, um aspirante diluído.

Então hoje eu vou falar o que penso sobre originalidade. Nada disso é comprovado pela ciência. É apenas minha opinião não solicitada, como de costume.

A originalidade é uma ilusão: ela é impossível e inevitável.

Impossível

Com sete bilhões de pessoas no planeta, ter uma ideia completamente original é impossível. Tudo que fazemos, pensamos e criamos acaba sendo um produto derivado de milhares de outros estímulos. Tudo que consumimos é absorvido, de forma mais ou menos intensa, pelo nosso inconsciente. Todo nosso trabalho é afetado por esse material absorvido.

É impossível criar algo isento de influência, inspiração. Não se preocupe com a originalidade — ela é inalcançável.

Inevitável

Mesmo com sete bilhões de pessoas, nenhuma é uma exata réplica da outra. Cada uma passou por experiências diferentes, tem pensamentos diferentes, consumiu materiais diferentes. Além disso, duas pessoas que consumiram as mesmas coisas e passaram pelas mesmas experiências, ainda assim têm pontos de vista diferentes sobre determinadas situações. O mesmo material é absorvido de forma diferente por pessoas diferentes.

Cada influência é internalizada e exposta de inúmeros jeitos. O que parece óbvio para um pode ser um absurdo para outro. Se várias pessoas escreverem a mesma história, sobre o mesmo evento, mas cada uma do seu próprio ponto de vista, cada versão será diferente e original.

Não se preocupe com a originalidade — ela é inevitável.

Sobre a influência

Algumas pessoas não gostam de se influenciar pela voz e estilo de outro autor, como se isso fosse alguma doença contagiosa. Você deve se considerar sortudo se te comparam com seu autor favorito! Imagina o prazer que isso traz? Deveria ser motivo de felicidade, e não algo a se evitar.

Quando não sabemos realizar determinada atividade, o que é mais comum do que se espelhar em quem sabe? Imitamos o estilo de alguém tocar um instrumento musical, jogar futebol, cantar, pintar, desenhar, se vestir, pentear… na escrita, porém, parece que se inspirar e imitar nossos ídolos é um tabu inaceitável.

Conscientes disso ou não, sempre seremos influenciados pelo que lemos, vemos, ouvimos, consumimos. E por que não deveríamos beber das fontes que gostamos? Não vivemos em um vácuo e, tão importante quanto, não criamos em um vácuo. Todo trabalho possui inspirações, então beba livremente da fonte dos bons livros, dos bons autores, e deixe esse conteúdo te guiar.

Lembre-se de que não está sozinho. Você é mais um na vasta nascente dessa fonte, então não tenha medo de ser influenciado demais. A originalidade é inevitável e impossível. Beba de tudo, especialmente do que mais gostar — é o conteúdo que vai te inspirar a dar o melhor de si. Suas obras favoritas mostram o que é possível, mostram o auge que você deseja alcançar.

Mergulhe na fonte, use as vozes dos seus autores preferidos e comece a escrever até encontrar a sua.

A originalidade consiste em tentar ser igual a todo mundo — e falhar.

— Raymond Radiguet