Oo que faz um diálogo ruim? Embora esteja ligado ao gosto de cada um, acho que podemos traçar características de diálogos que irritam qualquer leitor.

É normal cometer esses erros. O importante é reconhecê-los e consertá-los durante a revisão.

Esses são alguns pontos que me fazem trincar os dentes quando leio.

Nomes próprios

Lembre-se de qualquer conversa sua recente, seja pelo telefone ou cara a cara. Quantas vezes você falou o nome da pessoa com quem conversou? Aposto que foram bem poucas. Talvez nenhuma.

— Oi, Thiago. Te vi no cinema ontem.

— Como assim, Isabella? Tem mais de um ano que não vou ao cinema.

— Então era um clone seu, Thiago.

É claro que exagerei, mas deu pra ver como é estranho. E mesmo não soando natural, vários autores parecem gostar disso.

Dependendo da entonação com que pronunciamos, faz sentido. Mas na página não fica tão legal.

MAIÚSCULAS e múltiplas exclamações!!!!!

“Cinco pontos de exclamação, o sinal certo de uma mente insana.” —Terry Pratchett em O Senhor da Foice

Não entendo esse recurso. Por que não expressar a ênfase de maneiras menos intrusivas? Parece que estão tentando compensar um diálogo fraco. É muito melhor ler uma descrição da postura do personagem, o que ele está sentindo, o que ele está fazendo.

Talvez a palavra ou frase em maiúscula, se for usada uma ou duas vezes durante todo o livro, possa ter impacto. Para expressar um grito ou algo parecido. Mas múltiplas exclamações? Melhor deixar para os anúncios de eletrodomésticos.

Que tal colocar três vírgulas para aumentar a pausa?

Muitas redundâncias demais em excesso

Ele discordou com a cabeça.

— Não — disse.

***

Olhei para o relógio da parede. Seis horas, finalmente. Não pude conter o sorriso.

— São seis horas, tô indo! — gritei.

Nós, leitores, somos inteligentes o bastante para não precisarmos de tudo explicado nos mínimos detalhes. Se ele discordou com a cabeça, sabemos que é não. Se ele viu que são seis horas no relógio, não precisa mencionar de novo no diálogo.

Além disso, se a frase anterior ao diálogo foi uma ação do personagem, não precisamos do “disse”. É óbvio que a fala é dele. E é óbvio que ele disse.

“Modificadores”, disse com desprezo

Advérbios e modificadores de diálogos atrapalham a leitura. A não ser, é claro, que não sejam óbvios.

Se um personagem está brincando com outro, não precisamos do “brincou”. Já entendemos.

É muito melhor ler as sublinhas, as expressões corporais e as atitudes do que ser martelado toda hora com a intenção da fala. Quando isso não é possível, então os modificadores são úteis. “Ele disse lentamente”.

Advérbios podem ser substituídos por verbos mais fortes mesmo fora dos diálogos. Choveu pesadamente = caiu um temporal.

Monólogos

Às vezes o diálogo se arrasta por uma página inteira. É muito mais fácil ler um diálogo salpicado com ações dos personagens. Mas isso pode levar a…

Diálogos quebrados demais

— Os zumbis estão vindo. — João olhou pela fresta da janela. — Estão por todo o lugar. — Ele se afastou e olhou para os amigos. — Um de nós vai ter que ficar pra trás. — Seus ombros caíram. — Alguém se oferece?

O modo como imaginamos uma conversa não fica do mesmo jeito na página. Diálogo quebrado demais compromete a leitura. Às vezes esse efeito repicado é a intenção do autor, e muitas vezes fica legal. Usado o tempo todo, irrita.

Tudo isso é obviamente pessoal. Muitos podem não se incomodar com esses exemplos. Talvez nem mesmo reparem nisso. Pra mim, uma boa história compensa esses erros. A menos que estejam em todas as páginas, não abandono um livro por isso.

O que te incomoda nos diálogos?