Ttoda criança é um artista. O problema é como manter-se artista depois de adulto.

— Pablo Picasso

Que criança não gosta de desenhar? Ou de inventar histórias com seus bonecos e bonecas, de criar mundos com seus Lego, de desmontar seus brinquedos na tentativa de ver como tudo funciona por dentro? Eu não tenho o número exato, mas arrisco dizer que poucas.

Eu, quando criança, adorava fazer tudo isso. Tinha blocos e blocos de desenho, ficava horas inventando cenas e histórias com meus Comandos em Ação, montava construções absurdas com Lego e destruía vários brinquedos, o que irritava meus pais. Ou seja, era um bônus.

Mas eu cresci. Essas atividades artísticas foram ficando de lado, assim como os sonhos de um futuro com skates voadores e o retorno dos dinossauros.

Aí eu passei a consumir arte. Comecei a ler muito, principalmente a Coleção Vagalume, e descobri o mundo dos quadrinhos com Turma da Mônica, Recruta Zero e os personagens da Disney. Depois, comprei uma caixa mágica chamada Playstation e minha memória dos anos seguintes é apenas um vulto de cds piratas, músicas instrumentais e longas tardes de sedentarismo.

Eventualmente, reecontrei minha paixão pela escrita e pela criação da arte.

Acredito que a minha história seja igual à de muitos. Picasso estava certo — toda criança é artista, mas se perde no meio do caminho e pode ser difícil achar a trilha de volta. O que acontece nesse meio tempo? Por que deixamos as paixões infantis de lado e nos interessamos por coisas de adulto, como vida saudável, dinheiro e café?

O mundo nos atrapalha

Crescemos e ganhamos responsabilidades. Precisamos estudar mais, começamos a sair e manter relacionamentos sociais. Atividades como desenho e escrita, que antes eram hobbies, não têm mais espaço na nossa agenda entulhada de afazeres importantíssimos, como ver séries, assistir esportes e ler sites de fofoca.

Tá certo, tá certo, temos afazeres realmente importantes.

Além disso, o mundo ao nosso redor reforça ainda mais nossa escolha de colocar as atividades criativas de lado — escrever e desenhar não são opções válidas, quer morrer de fome? Pessoas sérias fazem faculdade e trabalham em escritórios, vestem roupa social e sabem dar nó em gravata.

Chega uma hora em que somos forçados a deixar de ser crianças e devemos entrar para A Vida Adulta. Um mundo onde cinto e sapatos devem combinar, onde escolhemos uma orientação política e odiamos com todas as forças quem tem opinião contrária e onde descobrimos que não existe um cesto mágico em que colocamos roupa suja e ela aparece limpa na cama, dias depois.

lado criança, lado infantilAche o seu lado criança

Cultivamos o ego. Não levantamos mais a mão quando temos dúvida porque o medo da humilhação é maior que a vontade de aprender. Somos criticados por comportamentos diferentes do padrão. Antes víamos a cor da pele como pele. Passamos a vê-la como motivo para atacar uma pessoa.

Não dançamos, não cantamos, não desenhamos, não construímos, não criamos, não brincamos, não escrevemos. Apenas obedecemos e seguimos.

Onde foi parar aquela criança cheia de energia e ideias criativas, que mal aguentava ficar parada cinco minutos sem criar alguma coisa nova? Ela está trancada em um quarto escuro, cheia de medo, com um lápis de cor na mão e sem ter onde desenhar. Acenda a luz, abra a porta e deixe-a sair novamente.

Como explicar a recente explosão de vendas dos livros de colorir para adultos, como o Jardim Secreto? Nossa vida não se resume a trabalho e estudo. Precisamos do escape, da diversão, da criatividade. Não que o trabalho e estudo não possam ser divertidos e criativos, mas se você está constantemente estressado com ambos, algo está errado.

Todos nós temos um lado criança. Podemos tê-lo perdido, mas é fácil achá-lo. Ignore o medo, ignore a crítica, ignore o padrão.

Cante, dance, desenhe, construa, brinque, crie, jogue. Escreva. O pequeno artista em você agradece.

 

*A imagem da capa foi retirada daqui.