Oos exércitos de Átila finalmente estavam presentes nas duas margens do Danúbio. O imperador Teodósio II estava paralisado e o rei dos hunos poderia dar o golpe mortal no Império Romano do Oriente.

Átila observava a cidade à frente, com o cavalo relinchando inquieto. Milhares de cavaleiros aguardavam suas ordens diante dos portões de Sirmium, o último obstáculo entre o Flagelo de Deus e Constantinopla.

— Diga-me, oráculo — exigiu Átila, dirigindo-se a um velho cego ao seu lado —, posso ser derrotado?

O ancião deu um sorriso perverso e dezenas de rugas brotaram no rosto amarelado, dando às cavidades de seus olhos uma aparência macabra.

— Sempre é possível, meu rei. — Sua voz era aguda e com um toque de escárnio. — Mas não hoje. Como eleito de Marte e mestre da guerra, hoje a vitória será apenas sua. E digo mais — o oráculo apontou um dedo trêmulo para a cidade —, a queda de Sirmium marcará o início da morte de seu pior inimigo, meu senhor.

Sem jamais desviar os olhos da cidade, Átila pareceu afundar na sela. Sua postura se encurvou e, por um instante, ele perdeu a altivez que demonstrava até durante o sono. O rei dos hunos sentiu no corpo cada ano de suas mais de quatro décadas de existência.

— Se os deuses existissem, oráculo, eu diria então que sua vingança contra mim começou. Pois meu pior inimigo sou eu mesmo.

O rei dos hunos não esperou resposta e cavalgou adiante, até a linha de frente do exército. Um cavaleiro galopou apressado dos portões da cidade, levantando poeira para encontrar-se com os hunos sitiantes.

Átila lembrou-se de sua campanha até cercar Sirmium. Os hunos avançaram a partir de Budapeste, tomaram Viminacium e Ratiara, exterminando os defensores, e chegaram à Belgrado. A guarnição de lá, ouvindo sobre a inclemência do Flagelo de Deus para com os resistentes, resolveu se render. Átila recrutou a guarnição para engrossar suas fileiras e partiu até Sirmium, onde enviou um mensageiro com os termos da rendição. Iria dominar a cidade, isso tinha certeza – cabia aos defensores decidir se seria com sangue ou com palavras.

Seu humor apenas piorou depois da conversa com o oráculo. Átila não perdoaria nenhum tipo de recusa. Iria mostrar o aço e o fogo dos hunos para homens, mulheres e crianças, caso as notícias não fossem de seu agrado.

O cavaleiro aproximou-se de seu rei. Era Orestes, general romano que havia se juntado à corte de Átila.

— E então? Teremos guerra? — A expressão de Átila era dura. Os nós dos dedos estavam brancos enquanto seguravam a rédea. Orestes percebeu a disposição sombria do huno e foi direto.

— Eles se rendem, meu senhor. — Orestes era compatriota daqueles cidadãos e a diplomacia deve ter sido fácil. — Eles se alistarão nas suas tropas da Panônia Segunda.

Satisfeito com o resultado, Átila relaxou. Como mestre da guerra, era, portanto, também responsável pela paz.

— É bom tê-lo do meu lado, Orestes. Fez bem.

Sirmium controlava Ilíria, Dalmácia, Mésia, Macedônia e Trácia. Em um último golpe sutil, sem derramar sangue, Átila e os hunos tinham o caminho livre.

— Preparem-se — gritou Átila para os que estavam em volta. — Vamos à Constantinopla.

***

Os hunos enfrentavam o exército defensor de Teodósio II. Sem paciência e máquinas para invadir as muralhas de Constantinopla, os invasores forçaram a saída dos romanos.

Os arqueiros a cavalo faziam suas intrincadas manobras de batalha. Em círculos, aproximavam-se e distribuíam a morte pelos arcos, fazendo chover flechas nas formações inimigas. Essa estratégia frustrava a infantaria romana – quando conseguiam se aproximar, os arqueiros se retiravam e davam lugar aos lanceiros montados, que trovejavam pelo campo e empalavam os romanos com facilidade, soltando seus monstruosos gritos, alucinados pelo calor da guerra e pela sede de matar.

Átila observava e comandava suas tropas da retaguarda. O exército inimigo era composto principalmente de mercenários godos, liderados por poucos romanos. Eles resistiam e, apesar das táticas dos hunos, conseguiam derrotar vários soldados. O Flagelo de Deus se perguntou quanto Teodósio II havia pagado aos mercenários e quais foram suas promessas a eles.

Mas não importava. A batalha estava terminada.

O general Ogenese, um dos principais do exército de Átila, acabara de chegar do oeste com reforços. Seus cavaleiros rasgaram o flanco dos mercenários, deixando o inimigo entre o martelo e a bigorna – Ogenese investiu como a marreta, e as forças principais de Átila pressionaram como a bigorna, esmagando os últimos sobreviventes.

O sangue corria pela terra no campo de batalha. Os urubus já rodeavam o local e alguns, mais ousados, refestelavam-se nos cadáveres. Átila era vitorioso, o inimigo estava destruído e o Império Romano do Oriente ajoelhava-se a um passo da conquista.

***

Constantinopla jazia debilitada, apenas com suas muralhas e um punhado de defensores amedrontados. Mas as muralhas eram imponentes, e a invasão não seria fácil – Átila perderia milhares de guerreiros na tentativa. O rei dos hunos lembrou-se da maldita previsão do oráculo. Pensou em quanto ganharia negociando pela paz com Teodósio II, sem precisar sacrificar ninguém. Pensou no próprio exemplo do Império Romano, que tentou abraçar o mundo inteiro e essa ambição tornou-se sua ruína, ficando com mais do que poderia dar conta.

Átila respirou fundo. Suas olheiras pareciam mais fundas.

— Orestes, exija um encontro diplomático — disse o Flagelo de Deus, para a perplexidade de todos que ouviam. – Que eles negociem pela paz. Vamos aguardar.

O pior inimigo de Átila já havia começado a morrer.

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Assim como Átila deixou Roma de joelhos, Total War: Attila também consegue derrotar sua contraparte romana. As melhoras diante de Rome 2: Total War são visíveis desde o começo. A mecânica das hordas nômades é fascinante. Adiciona um outro nível de estratégia ao jogo. Buscar terras mais férteis para uma alimentação melhor e para fugir do inverno rigoroso nos faz pensar muito mais em cada decisão.

O retorno da árvore genealógica também é muito bem-vindo. Praticamente tudo do Rome 2 foi melhorado. A inteligência artificial dos inimigos está bem melhor. Podemos realmente vê-los mudando de táticas durante as batalhas. O sistema de cerco (siege) também foi aperfeiçoado. Agora há Estágios de Agravamento – a cada Estágio a cidade sitiada passa por mudanças. No Estágio 1, por exemplo, as muralhas podem ser danificadas e os defensores são forçados a tomar posições mais adiante para segurar os invasores.

Para quem é fã desde o primeiro Rome: Total War e se decepcionou com Rome 2, TW: Attila é o game para recuperar a fé na série.

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DLCs

Infelizmente a franquia continua abusando da boa vontade dos jogadores. É um absurdo ter que pagar por elementos que deviam estar presentes desde o início – unidades, facções e – pasmem – sangue. TEMOS QUE COMPRAR UM DLC QUE ADICIONA SANGUE E VIOLÊNCIA EM UM JOGO DE GUERRA? O bom senso é um bárbaro vivendo às margens do glorioso Império Romano, sem jamais penetrar suas muralhas.

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MELHORIAS

As melhorias no novo título são fantásticas. As batalhas são mais prazerosas de jogar, o cerco de cidades está mais real, o gráfico, especialmente os efeitos de destruição, fogo e fumaça ficaram no ponto. Attila está para Rome 2 como o Napoleon: Total War estava para o Empire: TW. É uma pena que todas as melhorias sejam exclusivas para o novo game, e o Rome 2 esteja destinado a permanecer com suas imperfeições.

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AMBIENTAÇÃO

Pessoalmente, esse é um dos períodos da história sobre o qual mais gosto de ler e jogar. Guerra pra todo lado, nenhuma facção está segura, a ameaça dos bárbaros é um perigo constante para qualquer general, os nômades atacam e fogem e seus números não param de crescer. O jogo replicou magistralmente esse clima apocalíptico. Além disso, jogar com os hunos é uma experiência diferente – eles estão em constante migração e não podem controlar as cidades, somente saquear e arrasá-las.

Total War: Attila

Disponível na Steam por R$ 69,99.