Ttinha algo errado com aquela Fissura. Passava uma sensação inominável. O tenente Braxler apertou a empunhadura de sua espada buscando o conforto sólido da arma. O que eles fariam? Braxler foi designado para proteger a entrada da construção onde o trabalho importante estava sendo realizado naquele momento. A Chantria e os magos finalmente se reuniram para conversar sobre uma trégua. Paz, possivelmente. E agora… agora isso acontece.

Ele era um soldado, não um templário viciado em lírio. O que poderia fazer contra demônios e magos?

Os soldados sob seu comando rondavam a região em busca de sobreviventes, enquanto o tenente permanecia parado encarando a Fissura. Era diferente de tudo que havia visto até então. Braxler não sabia nada sobre magia e aquele portal estava diante dele, ondulando como uma alucinação pavorosa. Só que não era alucinação. Era um pesadelo bem real.

Ele obviamente conhecia o Imaterial. Todos iam até lá durante os sonhos, mas, exceto pelos magos, ninguém pensava sobre isso acordado.

Magos. Braxler tremeu debaixo de sua armadura. E se toda a situação não fosse um acidente? E se os magos vieram com o pretexto de conversar sobre paz com o objetivo oculto de trucidar a todos?

Ele respirou fundo e balançou a cabeça para os lados. Não, não fazia sentido. Seus soldados haviam encontrado tantos cadáveres de magos quanto de membros da Chantria. Eles não ficariam tão insanos a ponto de se matarem para poder atacar a organização religiosa.

– Tenente!

Braxler tirou os olhos do Imaterial e virou para o lado. A comandante Hilda corria de encontro a ele.

– Alguma atividade no seu posto? – ela perguntou a alguns metros. Tinha a postura rígida e uma expressão preocupada.

– Nada, senhora – Braxler respondeu. – Se houvesse sobreviventes, acredito que não teriam vindo pra cá. Mesmo assim os homens continuam procurando.

– Bom – Hilda murmurou.

O tenente respirou fundo o ar seco. Levantou o braço e apontou para a Fissura.

– Comandante, não gosto nada da aparência daquilo. Estamos nos arriscando demais – ele percebeu que sua mão tremia e abaixou o braço, cerrando o punho até machucar. Não podia parecer covarde diante de sua superior. – Somos poucos e podemos ser atacados por demônios a qualquer instante.

Hilda olhou para o portal de outra dimensão e também buscou conforto no aço que carregava embainhado. Suas olheiras pareceram aumentar. A pose inflexível da comandante começou a ceder, com os ombros caindo e a cabeça abaixando. Mas ela respirou fundo e colocou uma mão no ombro de Braxler.

– Não se preocupe, tenente. Os reforços já estão a caminho. Pássaros mensageiros acabaram de chegar.

Braxler soltou todo o ar, incapaz de esconder o alívio. Suprimiu um leve sorriso.

– Que bom, senhora. Nesse caso, acho que podería–

Houve um assovio e um forte deslocamento de ar na direção dos dois militares.

Da garganta de Braxler saiu uma ponta ensanguentada. O tenente levou as mãos aos pescoço e gorgolejou sangue. Seus olhos arregalados pediam uma ajuda que estava além de qualquer alcance. Ele caiu de joelhos, engasgando com o sangue que jorrava profusamente, e tombou para o lado, estrebuchando e espumando sangue com saliva. Com um último solavanco, seu corpo ficou imóvel.

A comandante Hilda mal teve tempo de reagir. Ela viu Braxler cair com um espinho atravessado no pescoço e desembainhou a espada, ficou em posição de combate e observou a Fissura, de onde aquele apêndice maligno havia sido disparado contra o tenente.

A Fissura ondulava. Era difícil perceber o que era desse mundo e o que era de outro plano maldito. A brecha tremia e havia movimentação dentro dela. A imagem era confusa, embaçada, mas a presença era clara – um terror abominável estava rondando aquele portal do abismo.

Então uma perna saiu da brecha. O coração de Hilda acelerou. O suor corria debaixo de seu capacete, grudando seu cabelo no rosto. A Fissura tremeu e um demônio foi vagarosamente saindo do mundo dos sonhos para atormentar os vivos. Era um ser de aparência grotesca, que testou a sanidade de Hilda. Envolta em sombras, a criatura babava e se rastejava pelo chão, emitindo sons guturais, incompreensíveis. Sua pele parecia derretida, e pedaços gosmentos grudavam na terra enquanto ele parecia se acostumar com a forma física.

A comandante mantinha a espada levantada apontando para a criatura. A criatura conseguiu se levantar.

Hilda olhou no que acreditava ser os olhos do demônio.

O demônio olhou de volta.

E correu.

dragon age inquisition 2

Na minha opinião, Dragon Age: Inquisition é o melhor título da Bioware. O game foi desenvolvido com todo o mercado em mente, e não apenas um seleto grupo de jogadores hardcore de RPG. O jogo é acessível para qualquer pessoa. O DA: I engloba elementos de dois dos maiores RPGs atuais – possui um mundo aberto para exploração, mecânicas de role-playing mais moderadas e um extenso sistema de quests, assim como The Elder Scrolls V: Skyrim, assim como ingredientes do sistema de batalha do Mass Effect 3, também da Bioware. Os produtores encaixaram os elementos com maestria e adicionaram dezenas de outros, tornando o todo maior que a soma das partes. Uma verdadeira obra-prima. Ignore-a por sua conta e risco.

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JOGABILIDADE

O jogo parece que saiu meio apressado para PC, que é a versão que joguei. Ainda há alguns bugs e falta muita otimização. Entretanto, quando tudo estiver perfeito, não haverá do que reclamar. O jogo agrada veteranos e iniciantes não só na franquia, mas também no gênero. As opções podem ser alteradas para quem deseja uma experiência mais leve ou quem estiver afim de desafios maiores.

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ENREDO

A trama do Inquisition é extraordinária. Os diálogos são absurdamente bem escritos e dublados. E tem MUITO diálogo. Há espaço para várias expansões e DLCs nesse mundo e especificamente no contexto do jogo. A história é rica e variada, e cada quest acrescenta ainda mais para a experiência. Como nos antecessores, as escolhes afetam o rumo da jornada. Dessa vez, contudo, a complexidade das escolhas vai além: elas moldam o personagem e sua relação com os companheiros, a Inquisição e o próprio mundo em que jogamos. Podemos destruir povoados, ajudar impérios e declarar guerra contra outras facções. Em outras palavras, podemos literalmente alterar o rumo da história.