Ffinalmente, a princesinha chegou — disse o líder do grupo ao avistar Amanda. Ela ofegava, com as mãos apoiadas nos joelhos, e não respondeu. O outro membro da expedição olhava para ela de uma máscara branca com o formato de cabeça de ave. Médico, pensou ela, com um sorriso falso. Amanda não gostava deles. Eram soturnos, calados e realizavam experimentos em humanos e animais vivos.

— Anda logo, a caravana já vai sair. — O líder entrou no transporte e foi seguido pelo médico. A caravana tinha cheiro de mofo e doença, um fedor azedo que incomodava até os olhos. A madeira rangia enquanto eles subiam.

Amanda sentou-se em frente aos outros. Ouviu o chicote do cocheiro estalar, e a carruagem começou a se mover.

Observou o líder da expedição. Pelo que lembrava, chamava-se Lincoln. Uma grande cruz vermelha marcava o peito de sua armadura de ferro. As olheiras fundas no rosto pálido davam a impressão de que ele não dormia há semanas. Estava sempre balançando a perna e sussurrando sozinho.

— Somos só nós três? — perguntou Amanda. Lincoln fez uma careta e coçou a barba com a mão calejada.

— Se tiver dinheiro pra bancar mais gente, fique à vontade.

— Você é templário, não é? Um guerreiro de Deus? Queria ter fé como você, mas nunca consegui.

— Ultimamente deposito minha fé apenas no aço — Lincoln murmurou, agarrando o cabo de sua espada até os nós dos dedos ficarem brancos. Virou para a janela da carruagem e não parou de falar sozinho até o fim da jornada.

O médico permaneceu imóvel como um cadáver, observando Amanda pelos buracos sombrios da máscara.

***

Após meia hora de viagem, chegaram a uma floresta. Ela brilhava com os raios solares preguiçosos do fim de tarde. O vento frio cortava a pele como navalha.

Em alguns minutos, haveria apenas escuridão.

Lincoln conversava com o cocheiro. Amanda, para não ter de conversar com o doutor, que ela nem tinha certeza se podia falar, checou seu equipamento. Apertou a rolha dos frascos de veneno e conferiu o fio das pequenas adagas de arremesso. Na mochila, olhou as tochas, que Lincoln tanto insistiu para que trouxesse, e as provisões de peixe salgado.

Seu coração palpitava de empolgação. Tinham recebido a ordem de caçar tesouros nessa floresta e poderiam ficar com quarenta por cento do que encontrassem. Diziam que a floresta era assombrada, mas eram histórias da plebe ignorante, sedenta por mistérios e conspirações. Apesar de ser sua primeira vez, sabia se virar e tudo seria fácil demais – pegar a bolada e voltar pra cidade.

Fácil demais.

Os cavalos relincharam. Lincoln retornou com uma veia saltando na testa.

— Temos uma hora para pegar tudo que pudermos e voltar até aqui — rosnou com saliva nos cantos da boca. — Se nos atrasarmos, ficamos a pé. Quem se perder, está sozinho. Entendido?

Eles assentiram, mas o templário já tinha marchado sozinho para a floresta. O médico o seguiu com passos calculados. Amanda segurou uma adaga pela lâmina e foi atrás.

Embrenhados entre as árvores, Amanda acendeu uma tocha. Parecia haver olhos em todos os lugares, brilhando com o movimento da chama. As sombras se esticavam e o frio apertava os músculos.

Galhos secos e folhas mortas estalavam a cada passo, frustrando qualquer tentativa de furtividade do grupo.

O murmurar de Lincoln ficou mais alto. Ele tinha a espada em punho.

Urros de dor e desespero vieram da frente deles. Duas pessoas surgiram, e a aparência de morte delas gelou a espinha de Amanda. Tinham a pele cinza, repleta de feridas podres e fungos crescendo dos membros, exalando cheiro de podridão e morte. Ela ficou paralisada, de boca aberta e olhos arregalados.

— Pai Nosso que estais no céu! — Lincoln gritou enquanto cortava a cabeça do primeiro que investiu contra ele. O segundo arranhou seu pescoço, afundando os fungos decaídos em sua carne.

— Santificado seja o vosso nome! — Ele afastou a criatura com o ombro e enterrou a espada em seu peito, fazendo-a tombar.

O médico tirou um pequeno frasco do manto negro e deu para o templário, que bebeu o líquido com pressa.

Uma terceira criatura veio correndo da esquerda. Dessa vez, Amanda reagiu. Quando as garras estavam quase tocando em Lincoln, ela arremessou sua adaga na testa do bicho, que caiu sem vida. Lincoln olhou ao redor, junto com o médico, em busca de mais inimigos. Viravam a cabeça de um lado ao outro, ouvindo sons de pés se arrastando e gemidos de agonia.

— O que… o que são essas coisas? — Suas pernas tremiam, e ela queria ir embora. Era jovem, habilidosa e poderia arrumar tarefas mais fáceis em outro lugar.

Duas criaturas a agarraram por trás e morderam seu pescoço e suas costas. O grito agudo de Amanda ecoou na noite. Ela derrubou a tocha e tentou correr, mas estava presa no abraço frio dos monstros.

Mais criaturas famintas saíram das árvores. Amanda chutava a terra e se debatia, a garganta seca de tanto gritar. Seus olhos imploravam por misericórdia e seu sangue escorria livre.

Os lábios de Lincoln tremiam. A cruz de sua armadura pareceu vermelha demais, pesada demais, falsa demais.

Aquele foi o momento em que o templário esqueceu seu deus e mergulhou na escuridão.

Os gritos e o olhar de Amanda assombrariam os sonhos de Lincoln até o fim de sua vida.

darkest dungeon gameplay

Um Early Acess que vale a pena ser comprado. É possível divertir-se como em um game completo. Darkest Dungeon conta com mecânicas desafiadores, atmosfera lovecraftiana e ideias inovadoras para o gênero. A arte gráfica é simplesmente linda, desenhada à mão com muita habilidade. O resultado foi uma ambientação perfeita.

O game já conta com dez classes de personagens, dúzias de equipamentos e upgrades, inimigos e chefes variados e dungeons para explorar. A versão completa vai trazer ainda mais opções, especialmente quanto ao enredo, e aparar as arestas que estão meio brutas (bugs de diálogo, combate e etc.).

%
BALANCEAMENTO

No início, Darkest Dungeon pode ser frustrante a ponto de desistirmos de jogar. Os recursos são escassos, não temos ouro, upgrades nem equipamentos e não podemos repor as perdas. Dependemos muito de sorte no começo. Os problemas são resolvidos enquanto avançamos. As recompensas melhoram e, do nada, podemos ficar overpowered. Entretanto, tudo ainda pode estar perdido se não tivermos sorte.

%
DUNGEONS

As dungeons do game são bem feitas. Sentimos o suspense e a tensão o tempo todo. O combate é brutal, e as armadilhas podem matar algum personagem, mas isso torna a exploração muito mais recompensadora. A sensação de limpar uma dungeon é de vitória. Cada decisão pode alterar todo o resultado — quem levar, o que comprar antes, quando usar tochas, quando acampar, quando investigar outro cômodo, quando sair das dungeons. Novamente, a natureza aleatória do jogo pende para as desvantagens, o que pode causar certo desequilíbrio.

%
ATMOSFERA

A arte gráfica, trilha sonora, narração, gameplay e ambientação se combinam numa maravilhosa orgia de Lovecraft com Dungeons & Dragons. Os personagens (e nós, jogadores) são lentamente torturados pelos sistemas de estresse, iluminação, comida e combate.

Darkest Dungeon

Disponível na Steam, em Early Access, por R$ 36,99.