Qquem não admira a escrita ou a “pessoa humana” de Eduardo Spohr? O cara criou um universo fantástico (nos dois sentidos da palavra), alcançou sucesso “imediato” (todo sucesso imediato se constrói aos poucos) e ainda dá aula de humildade, paciência e integridade pelas internets.

Gosto muito do trabalho de Spohr e desse carisma que ele tem. Algo que parece vir fácil e naturalmente pelas mídias onde o autor dá as caras.

Há muito tempo ouço os podcasts em que ele participa. No Filosofia Nerd, blog onde Spohr escreve irregularmente, tem uma página com os links de suas participações onde ele conversou sobre dicas de escrita e a carreira literária. São diversas horas de podcasts, nada impossível de ouvir, mas acredito que algumas pessoas não terão tanto tempo disponível para isso. Então resolvi compilar o que considero os principais conselhos sobre o assunto e postar aqui.

Vale lembrar que esses conselhos se encaixam em qualquer outra área de atuação.

Vamos lá:

1) Sente e escreva. É muito bom ter escrito. Ter o livro prontinho para enviar às editoras ou autopublicar. Olha só que coisa: isso não acontece do nada. Precisamos sentar a bunda e escrever todos os dias. Não importa quanto ou por quanto tempo. É necessário pegar o hábito da escrita. A disciplina de jorrar palavras em dias bons e dias ruins. A criatividade e a inspiração são frutos da persistência, e não o contrário.

“Só escrevo quanto estou inspirado. Felizmente estou inspirado todos os dias às 9 da manhã”. -William Faulkner

2) Seja profissional. A escrita, antes de ser hobbie ou arte, é uma profissão. Deve ser tratada como tal. Aperfeiçoe-se nessa carreira. Não basta apenas ter vontade. Há muito estudo envolvido na criação de obras de ficção (e também nas de não ficção) – diálogos, ganchos, foreshadows, pontos de vista, pontos de conflito, caracterização, curva dramática, cenário. A lista é extensa. Pesquise, aprofunde-se, domine os elementos. Conheça as regras para saber quando quebrá-las.

filhos do eden, livros, eduardo spohr, a batalha do apocalipse, anjos da morte3) A pesquisa é mais fácil quando escrevemos sobre o que gostamos. Spohr disse que não precisou realizar tanta pesquisa ao escrever Filhos do Éden porque era sobre um assunto que ele gostava e já sabia muito – a Primeira Guerra Mundial. Nos momentos em que precisou, fez com prazer. A pesquisa para um tema pode se tornar algo excruciante se considerarmos o assunto chato. Não aguenta mais ler sobre a cultura vampiresca e como ela seria em um mundo pós-apocalíptico? Troque tudo por um mundo medieval steampunk onde uma espécie de império romano se ergue para escravizar as raças não humanas. Ou humanas.

4) Cuidado com os editores. Eduardo Spohr e Fábio Yabu falaram sobre isso em 2010, no Nerdcast Profissão: Autor, mas acredito que o mercado não tenha mudado tanto. O recado foi o seguinte: há, no Brasil, talvez cinco ou seis editores sérios. Tenha cuidado ao lidar com eles. Se pedirem dinheiro adiantado, caia fora. Editor é o cara que te traz dinheiro e, consequentemente, também ganha.

5) Ignore os trolls. Internet, lar dos críticos. Aprenda a não gastar energia inutilmente com pessoas que visam agredir e criticar por prazer. Isso não quer dizer ignorar as críticas. Quando construtivas e argumentadas, elas são fundamentais para o aprimoramento profissional e até pessoal. São as críticas que nos fazem priorizar a qualidade. Saiba diferenciar o consumidor que se importa com o seu trabalho e quer vê-lo ainda melhor e o fanfarrão cheio de negatividade.

“Na internet, você pode ser qualquer coisa que quiser. É estranho que muitas pessoas escolhem ser idiotas”. -Anônimo

6) Construa uma comunidade. Seja por podcast, blog, Youtube, Twitter, Facebook, Instagram. Não espere lançar seu livro ou produto para começar a formar uma base e ganhar seguidores. Comece a mostrar sua personalidade, sua voz única para que o público saiba o que esperar do seu produto. Feito isso…

7) Interaja com seus fãs. Ou saia das redes sociais. Elas foram feitas para a interação, conversas e trocas. Spohr tem mais de 75 mil seguidores no Twitter e diz não ser impossível conseguir. Seus fãs te ajudaram a chegar onde chegou (ou onde quer chegar). Retribua.

8) Leia o que gosta e esqueça o resto. Se não tem interesse em ler clássicos como Moby Dick, Dom Casmurro ou até Senhor dos Anéis (blasfêmia!), não se preocupe. A maioria gosta de encher a boca para falar sobre clássicos por vaidade. Leia o que gosta – a vida é muito curta para passar horas e horas em leituras angustiantes. É claro que ler mais sobre o gênero em que deseja escrever ajuda. Muito. Mas há maneiras diferentes de se aprender.

“Não me importa se é Crepúsculo, 50 Tons de Cinza ou Guerra e Paz, nunca deixe fazerem você ter vergonha do que ama ler”. -Rae Carson

jornada do herói, heroi, mil faces, joseph campbell, eduardo spohr, estrutura9) A estrutura da Jornada do Herói é um guia. Ninguém é obrigado a segui-la para ser bem sucedido. É simplesmente uma ferramenta e deve ser tratada assim. Caso você tenha utilidade para ela, use-a na sua história. Conselhos, estruturas e muitas técnicas são apenas guias. Conserve o que funciona e descarte o resto.

10) A humildade nos leva longe. O sucesso pode subir à cabeça e tirar nosso foco. Seja humilde. Tenha paciência com quem está começando. Ajude quem puder. Tire dúvidas. Você pode acabar se tornando modelo para muitas pessoas, mesmo sem querer. Abrace essa responsabilidade.

11) O primeiro livro é sempre ruim. A menos que você seja um gênio. Spohr diz ter vários manuscritos engavetados que jamais verão a luz do dia novamente. Nosso primeiro trabalho tem grandes chances de ser uma bela bosta. É assim mesmo. Estamos começando a caminhar. Cada tropeção é um ensinamento. Cada erro, uma lição.

12) Prepare-se para a rejeição. Nem todo mundo vai gostar do seu trabalho. É impossível ter aceitação unânime. Se tiver a intenção de publicar por editoras, você terá que passar pelo homem do meio – um humano, de gostos peculiares, humor variável e inclinado à fadiga. A rejeição será parte do seu dia a dia. Acostume-se. Você vai criar uma carapaça que, com o tempo, o deixará imune à dor causada pelos nãos. Você não é seu trabalho. O que está sendo rejeitado é uma obra que pode e deve ser melhorada. Ou simplesmente uma obra boa o bastante, mas que não foi reconhecida por quem a recebeu. Por isso…

13) Acredite no seu sonho. Pode ser no segundo, no décimo ou no centésimo trabalho, mas você chega lá. Cada um tem sua jornada. A única garantia do fracasso é desistir. Enquanto continuar tentando, aprendendo, sua hora virá. A resiliência e a determinação são condições indispensáveis ao escritor. Erga a pena, a caneta ou o teclado e continue escrevendo, continue seguindo em frente, continue tentando. Continue sonhando.

“Obras rejeitadas não são fracassos. Obras não escritas, são”. -Greg Daugherty