Ffala, pessoal! O convidado para o post de hoje… sou eu! O Chapolin Colorado!

Seguindo o exemplo dos meus colegas das artes escritofrênicas, fiz um post sobre o que aprendi escrevendo meu primeiro livro, Limbo (mais informações aqui).

E coloquei dez coisas porque na casa do ferreiro, o espeto é de aço temperado.

1) Prazos ajudam

Eu escrevi Limbo na minha primeira participação no NaNoWriMo, o National Novel Writing Month, onde pessoas do mundo inteiro escrevem um livro em 30 dias. Para completar o desafio, precisamos escrever uma média de 1667 palavras por dia. Essa meta, esse objetivo definido me ajudou imensamente a começar e terminar Limbo.

A escrita não é uma atividade que requer urgência, então é normal procrastinarmos e deixar sempre para depois ou, mais comum, nunca. o NaNoWriMo me ajudou a manter o hábito de escrever todos os dias, não importa o que aconteça. Os fóruns, os participantes, os tópicos, tudo é tão voltado a inspiração, ao comprometimento com a arte, a motivação e ao trabalho em equipe que é impossível não se sentir focado.

Uma observação: ainda mais importante que o prazo, a lição mais valiosa do NaNoWriMo é a criação do hábito. Nada é mais importante que escrever todos os dias, faça chuva ou faça sol, quente ou frio, com ou sem café (mentira, é impossível escrever sem café).

E pode acreditar, haverá dias ruins.

2) Experimente planejar

Mesmo se você acha que delinear a trama trava a criatividade e torna sua escrita previsível, experimente planejar todo o livro antes de começar. Os leitores não sabem se você escreveu um livro planejando antes ou no improviso, porque terminar o primeiro rascunho é apenas o primeiro passo da jornada. As revisões te aguardam nas sombras.

Eu tenho certeza que não teria terminado Limbo se não tivesse planejado tudo. Já tinha o fim escrito quando comecei a escrever, mas adivinha só: ele mudou. A delineação do enredo é apenas um guia, um mapa. Quando seus personagens ganharem vida no mundo deles, confie no que eles fazem e dizem. Não tente guiá-los por pontos fixos, veja quais caminhos eles querem seguir.

Meu planejamento não foi muito detalhado. A história básica do livro é a seguinte: um espírito acorda e precisa enviar 12 almas heroicas de volta a Terra. O que eu delineei foram as características dessas almas, onde cada uma teria um capítulo. Depois, decidi quem seriam essas almas. Nem precisei pensar muito. Esses personagens apareciam facilmente pra mim, como visitas bem-vindas.

Aqui está uma foto do planejamento inicial, ainda sem os personagens. Eu prefiro delinear no papel, mesmo:

planejamento limbo

 

Algumas coisas mudaram durante a escrita. Acrescentei outros capítulos, outros personagens e eventos. O planejamento me deu uma visão do todo essencial para ver o que precisava ser aparado.

3) Confie na sua ideia

Não importa qual seja. Você ama essa ideia e quer compartilhá-la com o mundo? Vá em frente. Confie nela e confie em você.

É impossível antever a reação de qualquer pessoa. Muitas vão te amar de graça. Outras vão te odiar de graça. Nenhuma delas vai interpretar suas ideias da mesma maneira. Então se você tem uma ideia querendo explodir seu peito para sair, solte-a. Não importa se é diferente, se é arriscada, se você acha que será mal interpretado, se você acha que é estranha demais.

Limbo não segue uma estrutura convencional — há histórias dentro de histórias, cada capítulo contém seu próprio arco e tudo se desenvolve mais ou menos como em uma série. Isso me preocupou no início, mas cheguei à conclusão de que o melhor jeito de contar a minha história é do meu jeito. No fim das contas, me orgulho muito do livro.

Confie na ideia e siga em frente.

4) Guarde segredo ou compartilhe seu progresso com o mundo

Essa questão é ainda mais pessoal que as outras. Particularmente, eu preferi manter segredo sobre escrever Limbo. Não quis dividir isso com ninguém, exceto minha namorada. Gosto de fazer as coisas à minha maneira, no meu ritmo (e por isso o NaNoWriMo foi um desafio ainda maior pra mim). Então contar isso para o mundo seria um fardo desnecessário nas minhas costas. Eu preferi divulgar somente depois que o primeiro rascunho estava pronto.

Foi assim que achei melhor durante esse primeiro livro. No segundo, quem sabe?

Ache a melhor maneira para você. Talvez contar para todos os seus amigos te dê uma motivação a mais para concluir o livro. Talvez você seja mais introvertido e prefira passar pelo processo sozinho.

5) A síndrome do impostor é real

Mesmo se você nunca ouviu falar da síndrome do impostor, você provavelmente já foi sua vítima. É aquela sensação de que não devíamos estar fazendo o que estamos fazendo, uma incapacidade de se sentir merecedor de qualquer realização, uma vozinha interna que fica sussurrando o tempo todo “quem você pensa que é?”. Parece que a qualquer minuto alguém vai bater na nossa porta gritando “você é uma fraude, pare com isso agora!”.

Não há ninguém. A única pessoa que pode lhe dar permissão para criar é você mesmo. As pessoas terão as próprias opiniões a respeito do seu trabalho, mas ninguém tem diz o que você deve fazer ou não, o que você pode fazer ou não, a menos que você permita.

Saiba que não é o único a se sentir assim. Aprendi que, se quiser ser chamado de escritor (ou desenhista, ou artista, ou programador, ou o que quer que seja), isso tem que partir de você.

6) Encontre o que te ajuda a escrever

O Eric Novello falou sobre como a música foi importante no seu processo de escrita. Eu gosto de escrever ouvindo músicas instrumentais, especialmente trilhas sonoras de games. O discurso do Neil Gaiman também mudou meu modo de enxergar certas coisas. Durante o mês em que escrevi Limbo, li o livro No Plot? No Problem!, do Chris Baty, criador do NaNoWriMo. Além de ajudar os que pretendem escrever um livro sem planejamento, o que não foi o meu caso, No Plot conta com uma seção específica para o NanoWrimo, que deve ser lida um capítulo por dia. A seção é recheada de dicas e motivação para você continuar o trabalho e alcançar sua meta diária. Foi uma ajuda e tanto pra mim.

Descubra o que ajuda você a escrever, o que te deixa agitado e descontrolado pra criar.

Talvez você precise de um pequeno ritual antes de começar o trabalho. Pode ser um ouvir um discurso, ler um texto, assistir uma palestra, sei lá.

Encontre o que mexe com seus músculos criativos.

7) Não se leve tão a sério

Não consigo expressar o quanto é maravilhoso escrever um livro. É sério. É uma forma de expressão artística incrível. Você coloca um monte de palavras em uma página e faz uma pessoa ficar parada lendo cada uma, entrando na cabeça dela. É demais.

E ao mesmo tempo não é nada demais. Sério, é só um livro. O mundo continua girando.

Se você pretende escrever um tratado da literatura, uma obra pra ser estudada e dissecada, um crítica detalhada da sociedade e da psique humana, não há nada de errado com isso. Vá em frente! Cada um tem seus próprios objetivos.

O meu, no caso, foi me divertir e divertir os outros. Limbo está cheio de referências, piadas estranhas, metáforas absurdas e diálogos e pensamentos meio surreais. Como Neil Gaiman disse uma vez, você precisa rir das próprias piadas. Cara, como eu ri.

Então não se preocupe em excesso com a sua obra-prima. Divirta-se.

8) Escrever é reescrever

O primeiro rascunho, a primeira vez que você chega ao fim da história, é apenas isso: um rascunho. Talvez seja a parte mais difícil (há autores que temem mais a revisão), mas ainda assim está longe de terminar.

Escreva essa versão o mais rápido que puder e não fique parando para editar no caminho. Isso te atrasa e pode te deixar empacado. Durante o meu processo, em diversas partes, eu simplesmente escrevia “acrescentar descrição”, “melhorar diálogo”, “pesquisar passagem” ou “pensar em metáfora”. Deixe os detalhes para a revisão, ou revisões, e metralhe o primeiro rascunho para chegar ao fim.

Com a primeira versão completa, você terá uma nova visão do todo, e aí o trabalho continua.

9) A inspiração não existe

disse isso várias vezes, mas ficou bem claro pra mim enquanto escrevia Limbo. Eu sei que parece contradizer o número 7, mas há dias em que parece que o poço secou e escrever é uma tortura. Não importa. Não espere por relâmpagos de inspiração divina te acertando do nada.

Sente a bunda e escreva uma palavra atrás da outra, fazendo o máximo possível para não ficar uma merda ilegível. Esse é só o primeiro rascunho, lembra?

Você deve ir atrás da criatividade, e não esperar por ela.

10) Caixa de ferramentas

Finalmente, o aprendizado que considero o mais importante para a minha vida, e não somente para a escrita. Stephen King falou, no livro Sobre a Escrita, sobre a caixa de ferramentas dos escritores. Segundo ele, todo autor possui uma caixa cheia de técnicas e habilidades de escrita (ou ferramentas), e o autor deve saber quando usar cada uma.

Então trate todo e qualquer conselho como uma ferramenta. Além de decidir quando usá-la, você decide se é uma ferramenta útil e se vale a pena adicioná-la à sua caixa.

Porque cada escritor tem as suas próprias ferramentas. Tudo o que falei nesse post é o que faz sentido pra mim. Tudo o que os autores convidados escreveram no blog, é o que faz sentido pra eles. Não há certo e errado. Há experiências diferentes.

Um exemplo pessoal: tenho uma mania chata de ler todo e qualquer livro sobre técnicas de escrita, como você podem ver pelas leituras do mês (e nem costumo colocar todos lá). Ultimamente, estou conseguindo dar um tempo.

Nessa busca incessante por técnicas e conselhos diferentes, acabei encontrando um padrão curioso. Vamos chamar o fenômeno de Paradoxo do Primeiro Capítulo.

Eu encontrei dezenas de modos diferentes de como não começar um primeiro capítulo de um livro, como:

  • Não comece com descrições
  • Não comece com diálogos
  • Não comece com clima
  • Não comece com divagações
  • Não comece com piadas
  • Não comece com flashbacks
  • Não comece com sonhos
  • Não comece com caracterização

E a lista continua. É sério.

Cheguei à conclusão de que a melhor maneira de começar um primeiro capítulo é não escrevê-lo. Essa busca por conselhos quase me travou. Como começar se não existe um jeito certo?

Realmente, não há jeito certo. Há o seu jeito.

Eu já li bestsellers que fazem exatamente o que esses livros de técnicas dizem para não fazer. E você pode argumentar que é preciso aprender as regras para saber quando quebrá-las. Talvez. Mas não há um manual absoluto de como escrever um livro. As regras são imaginárias.

Não há como prever a reação de um leitor. O seu público pode gostar exatamente do que você leu que é proibido fazer.

Então faça o seu melhor, porque isso é bom o bastante. Você ainda pode (e deve) estudar estrutura e aperfeiçoar suas técnicas, já que o aprendizado é eterno, mas lembre-se da caixa de ferramentas.

Não entre na ouroboros da serpente que come o próprio rabo, em um ciclo sem fim.

Use o que gostar, descarte o resto.

Espero que tenham gostado do post e, claro, que gostem de Limbo. Você pode saber mais sobre ele aqui.

Limbo está disponível em versão digital e versão física.

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